Sem pedigree, mas esbanjando aquele amor vira-lata (Diário de Canoas)
7 de janeiro de 2020
Por Jeison Silva
Para adestrar, o vira-lata é o último da fila na preferência de cinófilos. Mas a habilidade que Gordo, Vivi, Fiona, Candy e Dourado demonstram nos aparelhos da ONG Cão Terapia fazem qualquer especialista reavaliar suas convicções. A cada salto, corrida e obediência de comando, no campinho da pracinha do bairro São José, na Avenida Farroupilha, essa turma sem pedigree promove uma verdadeira transformação na vida de dez famílias. O estímulo à interação com os animais de rua treinados tem trazido resultados visíveis a crianças e adolescentes com diagnóstico de Autismo e Hiperatividade. O trabalho é desenvolvido há dez anos em Canoas, porém desde o ano passado a equipe de Ivan Brizola, 55 (sócio da empresa Dog's School) formalizou-se como uma organização sem fins lucrativos. “Cão de raça vem com predisposição e padrão de raça, função ou ação incutida na genética. Não quer dizer que outro não possa fazer”, afirma o instrutor que trabalha no ramo desde 1984. “O vira-lata é miscigenado e não sabe o padrão dele, o profissional tem que selecionar e aprimorar essa função.”
Uma das filosofias da ONG Cão Terapia é proporcionar um trabalho que contemple toda a família, não apenas o paciente com diagnóstico. “Não se trabalha a criança, pois parece que a solução está nela e ela não é solução, precisa de adulto para conduzi-la”, salienta. “Queremos também orientar os país, colocá-los como ponto de referência.” Vários amigos de Brizola foram convidados a se voluntariar, entre eles médicos e advogados. “Nenhum deles têm filhos com deficiência, simplesmente querem ajudar a causa. E usar a tal da razão, não só a emoção”, explica. “Recebemos o feedback de psiquiatrias, de neuro, fono. As mães percebem que a coisa funciona e veem evolução, o resultado aparece.” Segundo o instrutor, a melhora no quadro geral dos pacientes vem do exercício e do estímulo à musculatura, da confiança, o que repercute nas sinapses, ou seja, no melhor funcionamento do cérebro.
ENTREVISTA – Ivan Brizola, especialista em adestramento de cães
Diário de Canoas – Como adestrar um cão vira-lata?Brizola – O cão de raça vem com predisposição e padrão de raça, com uma função ou ação incutida na genética. Não quer dizer que outro não possa fazer. Vira-lata é miscigenado e não se sabe ao certo o padrão dele. O profissional tem que selecionar e aprimorar essa função pré-disposta. Os cães de rua podem ter uma interação perfeita com o ser humano, mas é diferente quando se fala em terapia ou alto rendimento. É como no basquete. O mais alto tende a se dar melhor, mesmo que um mais baixo jogue mais. Ou então o exemplo da ginástica olímpica: é raríssimo um atleta muito alto, predomina os de estatura média e baixa. Sobre os cães, podemos lembrar do desenho do Pluto: desde bebezinho o perdigueiro levantava a patinha para alcançar uma borboleta. Esse é um hábito que está no DNA e Pluto fazia de forma inerente.
DC – O vira-lata é um cão inteligente?
Brizola – A inteligência é medida por várias ações. O cachorro tem a sua e é considerada parca. Temos nossos cinco sentidos, alguns super outros hipo desenvolvidos, mas é o ato cognitivo de pensar que nos separa dos cães. O cachorro tem a habilidade de saber se alguém esteve na sua sala, pelo faro. Eu não saberia. Mas o cão sozinho não sabe o que fazer com essa informação. O ato de pensar é que a coisa mais fantástica que Deu nos deu, ainda que mal usado.
DC – Como é que um cão auxilia na terapia?
Brizola – Tem uma veterinária, com mestrado e tudo, que disse que não pode ser feito com vira-latas. Nós mostramos que é possível, na prática. O cão é uma ferramenta que se utiliza. É um somatório de ações para a criança ter outro estímulo e outra resposta. O cachorro é maravilhoso pois a criança mimetiza, imita. O filho, por exemplo: pega o sapato do pai e aprende a andar com sapato, copiando. Equipes multidisciplinares atuam melhor. Recebemos feedback de psiquiatrias, de neuro, fono, as mães realmente dizem que a coisa funciona, veem evolução. O resultado aparece. Eu não sei como ocorre a melhora, mas sei que exercitando o corpo a musculatura reage diferente, a sinapse neural ficará diferente. Os pais relatam que é melhora também para a vida deles. A dinâmica do nosso trabalho é com a família.
DC – Como é a formação para trabalhar com cães? E o “encantador de cães”?
Brizola – Sou cinófilo de carreira desde 1984. Fui morar na Argentina em 1982 e tive oportunidade de trabalho e me encontrei. Sou tesoureiro do Kennel Clube. Sou sócio da Dog's School e presto serviço para empresas, fui instrutor da polícia do Exército. Aprendi na prática, num canil com quatro adestradores. Hoje o mercado da cinofilia é muito estranho. Com 20 horas se vira adestrador, e é uma falácia. Há cursos de formação pouco sérios. Fiz cursos com profissionais dos EUA, de fora do Brasil. Já fiz seminário na Argentina com o Cesar Millan “O encantador de cães”. Ele é um showman chicano que conheceu família do Will Smith e o ator levou ele para Oprah, a manager. A técnica dele é boa e real: encontrar o homem como líder, mas depende do líder... Hitler foi, Jjesus foi. Ser líder é complexo, como vou gestar a liderança é a diferença. Não adianta pegar pedaço de pau para ameaçar um cachorro. Isso gera sequelas.
DC – Como acostumar os cães aos fogos de artifício?
Brizola – O cachorro tem o ouvido mais delicado. O ser humano tem mania de gritar com o bicho, e não é isso. O profissional precisa ganhar a confiança do animal e passar tranquilidade, é a primeira coisa. Todos nós só aprendemos algo de um professor que a gente confie. Tem que ter feeling. Segundo, o cão tem que ser apresentado gradativamente ao que é um fogo de artifício e ir se desensibilizando, mostrar que não oferece todo o risco. Lembro de uma pastora alemão, tinha dificuldades em vencer o obstáculo da correria, uma rampa em forma de A, de 1,70 metros de altura. Passei carinho, diminui altura e cinco minutos depois a pastora passou pelos 1,70 metros como se a vida toda fizesse isso.
Para fortalecer o trabalho
As sessões ocorrem às terças e quintas-feiras, das 15 às 17 horas, um atendimento por semana. Fica na pracinha próximo à Ulbra na Avenida Farroupilha, 7200, esquina com a Rua Castanheiras. O telefone para entrevista de pacientes interessados é o 51-98425-2861. “Pelo celular se marca o acolhimento pelo psicólogo Eduardo Pontin, pega-se a documentação da criança e se estabelece o trabalho”, salienta Brizola. “Só que a gente alerta: não é um trabalho fácil, exige autoconhecimento mudança interior e o preço é caro: querer mudar.”
Nos últimos meses, a ONG dobrou o número de atendidos e se organiza para ampliar ainda mais em 2020. O DC acompanhou a confraternização de encerramento dos trabalhos em 2019 e ouviu dos organizadores sobre a necessidade de novos apoiadores para que a ONG alcance ainda mais pessoas. “Fizemos um primeiro evento para arrecadação de fundos, eu cobria todos os custos”, revela Brizola. “Agora realizamos uma festa de fim de ano na Associação Petrobras e reunimos 200 pessoas e seguimos contando com parcerias.”
Família unida nas sessões
Há seis meses a família de Índia Azambuja, 38, vem de Esteio para a terapia com os cães da ONG. “Fomos convidados a conhecer, antes íamos na APAE da nossa cidade”, destaca. A família se uniu e organizou a agenda para acompanhar Elis Azambuja, 17, que busca auxílio para uma vida melhor. “A Elis salivava muito e dificuldades de interação social”, recorda Índia. “O trabalho com os cães tem ajudado bastante, é visível a melhora dela.” A irmã de Elis, Judi Azambuja, 20 cursa Artes Visuais na UFRGS e busca sempre acompanhar o trabalho. O mais novo, Raul, tem encontrado bons resultados para a hiperatividade. “Os pais relatam que a Cão Terapia é também uma melhora para a vida deles próprios”, pontua Brizola. “O cão é uma ferramenta que se utiliza. É um somatório de ações para a criança ter outro estímulo e com isso buscar outra resposta.” Além do afeto e da segurança passados pelos cachorros, os pacientes e familiares estreitam os laços entre si e cumprem o mesmo circuito que os cães, tornando a brincadeira pedagógica e divertida ao mesmo tempo.
ENTREVISTA – Ivan Brizola, especialista em adestramento de cães
Brizola é treinador de cães e decidiu desmistificar a pouca inteligência dos cães vira-latas Foto: PAULO PIRES Diário de Canoas – Como adestrar um cão vira-lata?
Brizola – O cão de raça vem com predisposição e padrão de raça, com uma função ou ação incutida na genética. Não quer dizer que outro não possa fazer. Vira-lata é miscigenado e não se sabe ao certo o padrão dele. O profissional tem que selecionar e aprimorar essa função pré-disposta. Os cães de rua podem ter uma interação perfeita com o ser humano, mas é diferente quando se fala em terapia ou alto rendimento. É como no basquete. O mais alto tende a se dar melhor, mesmo que um mais baixo jogue mais. Ou então o exemplo da ginástica olímpica: é raríssimo um atleta muito alto, predomina os de estatura média e baixa. Sobre os cães, podemos lembrar do desenho do Pluto: desde bebezinho o perdigueiro levantava a patinha para alcançar uma borboleta. Esse é um hábito que está no DNA e Pluto fazia de forma inerente.
DC – O vira-lata é um cão inteligente?
Brizola – A inteligência é medida por várias ações. O cachorro tem a sua e é considerada parca. Temos nossos cinco sentidos, alguns super outros hipo desenvolvidos, mas é o ato cognitivo de pensar que nos separa dos cães. O cachorro tem a habilidade de saber se alguém esteve na sua sala, pelo faro. Eu não saberia. Mas o cão sozinho não sabe o que fazer com essa informação. O ato de pensar é que a coisa mais fantástica que Deu nos deu, ainda que mal usado.
DC – Como é que um cão auxilia na terapia?
Brizola – Tem uma veterinária, com mestrado e tudo, que disse que não pode ser feito com vira-latas. Nós mostramos que é possível, na prática. O cão é uma ferramenta que se utiliza. É um somatório de ações para a criança ter outro estímulo e outra resposta. O cachorro é maravilhoso pois a criança mimetiza, imita. O filho, por exemplo: pega o sapato do pai e aprende a andar com sapato, copiando. Equipes multidisciplinares atuam melhor. Recebemos feedback de psiquiatrias, de neuro, fono, as mães realmente dizem que a coisa funciona, veem evolução. O resultado aparece. Eu não sei como ocorre a melhora, mas sei que exercitando o corpo a musculatura reage diferente, a sinapse neural ficará diferente. Os pais relatam que é melhora também para a vida deles. A dinâmica do nosso trabalho é com a família.
DC – Como é a formação para trabalhar com cães? E o “encantador de cães”?
Brizola – Sou cinófilo de carreira desde 1984. Fui morar na Argentina em 1982 e tive oportunidade de trabalho e me encontrei. Sou tesoureiro do Kennel Clube. Sou sócio da Dog's School e presto serviço para empresas, fui instrutor da polícia do Exército. Aprendi na prática, num canil com quatro adestradores. Hoje o mercado da cinofilia é muito estranho. Com 20 horas se vira adestrador, e é uma falácia. Há cursos de formação pouco sérios. Fiz cursos com profissionais dos EUA, de fora do Brasil. Já fiz seminário na Argentina com o Cesar Millan “O encantador de cães”. Ele é um showman chicano que conheceu família do Will Smith e o ator levou ele para Oprah, a manager. A técnica dele é boa e real: encontrar o homem como líder, mas depende do líder... Hitler foi, Jjesus foi. Ser líder é complexo, como vou gestar a liderança é a diferença. Não adianta pegar pedaço de pau para ameaçar um cachorro. Isso gera sequelas.
DC – Como acostumar os cães aos fogos de artifício?
Brizola – O cachorro tem o ouvido mais delicado. O ser humano tem mania de gritar com o bicho, e não é isso. O profissional precisa ganhar a confiança do animal e passar tranquilidade, é a primeira coisa. Todos nós só aprendemos algo de um professor que a gente confie. Tem que ter feeling. Segundo, o cão tem que ser apresentado gradativamente ao que é um fogo de artifício e ir se desensibilizando, mostrar que não oferece todo o risco. Lembro de uma pastora alemão, tinha dificuldades em vencer o obstáculo da correria, uma rampa em forma de A, de 1,70 metros de altura. Passei carinho, diminui altura e cinco minutos depois a pastora passou pelos 1,70 metros como se a vida toda fizesse isso.

É com grande alegria que anunciamos a nossa parceria com o SICREDI por meio do Fundo de Desenvolvimento Social. Agradecemos a confiança desta grande instituição, que assim como nós, acredita que juntos podemos fazer a diferença. Obrigado Sicredi! Parabéns a todos os integrantes, voluntários, amigos e famílias atendidas pela ONG: essa conquista é de todos nós! #ProjetoContemplado #FundoSocial2020 #FundoSocialSicredi #ongcaoterapia



